terça-feira, 18 de março de 2008

O SENTIDO DA LINGUAGEM por Carla Françoia


A clínica psicanalítica se apresenta com algumas especificidades em relação a outras práticas terapêuticas. Uma delas e a mais importante é a relação que se estabelece entre o psicanalisando e seu discurso em análise. Sendo a fala o único meio de que dispõe a técnica da psicanálise, é por ela que Lacan inicia o que será a apresentação de um modo renovado de lidar com a experiência analítica, e é nesse campo que o simbólico entra em cena fundando uma compreensão diferente sobre o sujeito. Lacan aponta que é errado buscar no comportamento do psicanalisando o sentido do seu sintoma e que a busca deve ser feita na fala, pois é nela que aparece a verdade sobre o ser e esta fala é uma fala que sempre apela por uma resposta. É uma fala que roga uma presença, um outro, e, nesse caso, o psicanalista é o ouvinte deste discurso: “é esse o cerne de sua função na análise”[1].

Fundamentando sua teoria tanto na antropologia de Levi-Strauss quanto na lingüística de Saussure, Lacan reorganizou todo um modo de se compreender a linguagem estabelecendo padrões diferentes daqueles de seus influenciadores. Em Saussure a língua é um sistema onde os signos apresentam sua significação na reciprocidade dos pensamentos e dos sons e esses, por sua vez, nas suas relações a outros signos delimitando, assim, seu valor. Isto é, o valor de um termo se dá sempre por oposição a outro termo dentro da cadeia discursiva. A significação do signo lingüístico aponta a articulação do seu conteúdo, enquanto seu valor, a relação de oposição que mantém com os outros signos. “Fazendo parte de um sistema, cada palavra está revestida não só de uma significação, mas também e, sobretudo, de um valor [...] o valor de qualquer termo é determinado pelos que dele se aproximam”[2].

Este esquema é utilizado por Lacan para descrever o oposto do que ele está articulando em relação à cadeia significante e a possibilidade de significação que se possa engendrar a partir dela na construção teórica que faz da sua psicanálise. É ao desarticular este esquema que Lacan pode começar a falar do modo de significação do discurso do psicanalisando a partir do “deslizamento incessante do significado sob o significante”[3]. Segundo Lacoue Labarthe e Nancy[4], Lacan só pode falar em deslizamento do significado porque mantém a independência deste com o significante, indo na contramão do que propõe Saussure, que subordina sempre a coextensão da cadeia dos significados à cadeia significante na flutuação dos reinos.

Não é do “duplo fluxo paralelo do significante e do significado, distintos e fadados a um deslizamento um sobre o outro”[5] que um sentido pode ser proposto para um discurso, mas pelo viés de um outro esquema que Lacan propõe. É do ponto de basta (point de capiton) que nosso autor passa a tratar para dar conta dessa esquiva constante do significado em relação ao significante no deslizamento de um e de outro termo dentro da cadeia discursiva.

É no ponto de basta que deve a análise de um discurso concreto se fundamentar, pois é no momento em que ocorre um rompimento deste deslizamento que o significado se amarra ao significante formando uma significação. “É o ponto de convergência que permite situar retroativamente e prospectivamente tudo o que se passa no discurso”[6]. No momento em que a palavra é tomada, já não no seu sentido de signo como Lacan vem buscando exaustivamente descrever, mas dentro de uma cadeia que comporta vários significantes e significados que deslizam isoladamente; e, neste deslizamento constante do significado sob o significante, é necessário que haja uma interrupção, pelo viés de uma pontuação, causando, enfim, uma significação. Na pontuação, há uma interrupção do deslizamento do significado, que, ao se ancorar num significante, ambos se entrelaçam formando uma significação,

“(...) é preciso, para que se efetive uma significação num dado momento que, em geral, de lugar em lugar, o significante interrompa o deslizamento do significado como que por fenômeno de ancoragem que dá lugar à pontuação”[7], e desta, ocorre um entrelaçamento do significante “(...) a massa sempre flutuante das significações (...)”[8]. O ponto de basta permite a associação de um significante a um significado dentro da cadeia discursiva e Lacan afirma que uma significação só acontece quando o último elemento da frase estiver concluído determinando, desta forma, que é sempre a posteriori que o sentido acontece. Quando há a pontuação da frase, quando ela é interrompida por uma pontuação é que se pode pensar no sentido para o primeiro, segundo, terceiro e assim por diante, termo da frase. É sempre na conclusão da frase que se pode acomodar um sentido retroativamente para a primeira palavra da frase.

“Desse ponto de basta, encontrem a função diacrônica na frase, na medida em que ela só fecha sua significação com seu último termo, sendo cada termo antecipado na construção dos outros e, inversamente, selando-lhes o sentido por seu efeito retroativo”[9].

Com a pontuação no discurso de um sujeito além de permitir que um sentido surja para a cadeia significante, pois há um momento em que significante e significado se entrelaçam, ocorre também o surgimento do que vem a ser a questão do sujeito. O ponto de basta corresponde exatamente ao que Lacan já estava esboçando tempos atrás, isto é, a interrupção da sessão para que surgisse o desejo inconsciente e que uma sessão psicanalítica não deve ser comandada pelo tempo cronológico e sim pelo tempo lógico de um sujeito.

“(...) é uma pontuação oportuna que dá sentido ao discurso do sujeito. É por isso que a suspensão da sessão(...) desempenha aí o papel de uma escansão que tem todo valor de uma intervenção, precipitando os momentos conclusivos”[10]

Trata-se com isto de conferir às experiências do sujeito relatadas ao analista um sentido pela pontuação neste discurso através da escansão da análise. Ou melhor, a sessão analítica tem por determinação a suspensão de uma sessão num momento importante do discurso do sujeito, por parte do analista, para poder surgir uma significação, ou uma ressignificação das vivências passadas que estão no discurso do sujeito. Portanto, os eventos da vida de um sujeito que ficaram incompreensíveis, ou que passam a interferir no desenvolvimento de sua vida formando sintomas, serão retomados dentro da clínica unicamente a partir do relato desses eventos, ou no discurso, na presença do analista que pontua esse discurso para que o sentido desses eventos possa se dar por retroação. É a pontuação do discurso imaginário que permite esse acesso a verdade inconsciente que Lacan propõe enquanto técnica terapêutica. Quando da pontuação para que os termos da cadeia produzam um sentido, cada vez que determinado assunto surja, num momento diferente no discurso de um sujeito, poderá tomar várias outras formas de significação permitindo mais uma vez atribuir a essa forma de pensamento tanto a autonomia do significante como a temporalidade da cadeia significante e a questão do sujeito.

Lacan formulou com sua teoria “o papel constituinte do significante no status que Freud fixou de imediato para o inconsciente”[11] . Esse inconsciente que em Freud se apresenta não apenas nos sonhos e na neurose, mas em todas as ações do homem e que em Lacan está localizado na linguagem e forjado semelhante – mas não igual – ao algoritmo saussiriano que se apresenta como pura função do significante. Em Freud o inconsciente, para burlar a censura e poder se manifestar como um discurso aparentemente sem sentido, precisa do deslocamento e a condensação, o que em Lacan, como o inconsciente é produto da linguagem, este mostra seus efeitos através da metáfora e da metonímia.

Dentro deste quadro em que Lacan apoiou sua releitura da obra de Freud, esses dois conceitos, deslocamento e condensação, foram reordenados para apresentar o que em Freud seria a Entstellung (deformação) das representações inconscientes para burlar a censura e aparecer no discurso do sujeito. Em Lacan é pela metonímia e pela metáfora que é possível o sentido de um discurso neste deslocamento significante que segue a cadeia discursiva. Condensação e deslocamento são os dois modos de operação que as representações inconscientes encontram para sair do estado de latência para o estado manifesto. Isto é, sair do inconsciente e tornar-se consciente. Nos sonhos, nos sintomas, nos chistes enfim, nas formações inconscientes descritas por Freud, o conteúdo latente precisa ser transformado para poder ultrapassar a censura e tornar-se conteúdo manifesto, ou consciente. Essa transformação acontece pelo deslocamento, que é a substituição de uma representação por outra, enquanto a condensação comporta-se de modo a aglomerar representação formando uma outra representação.

Em Freud um exemplo do modo de funcionamento do inconsciente através da linguagem pode ser visto a partir do ato falho. Um ato involuntário do sujeito inconsciente que se mostra pela linguagem e que comporta um sentido não reconhecido. O ato falho é um ato substituto de uma ação impossível de ser realizada pelo sujeito devido a censura. De um certo modo não houve deformação através do deslocamento ou da condensação. Uma palavra que irrompe no discurso do sujeito, um ato insuportável em que o sujeito estaria exposto frente a uma verdade que não pode ser revelada. Mas, essa verdade que surge em substituição a um ato que seria ideal e que comporta um sentido acontece de forma absolutamente inconsciente. Ë produto de uma substituição inconsciente que acontece sem intenção consciente e que mostra uma verdade que precisou, de modo disfarçado, ser apresentada para e pelo próprio sujeito. Portanto, o ato falho não é somente um equívoco, um ato anódino de linguagem e, sim, uma verdade do sujeito que o atravessou e surgiu no discurso. Em termos lacanianos, um significante que substituiu outro significante sem intenção consciente e que comporta um sentido que precisa ser desvelado.

Em uma análise o analista deve estar atento ao discurso de seu paciente principalmente nos momentos em que a linguagem tropeça, pois é nesse momento que surge de forma mais explícita o que Lacan denominou de sujeito do inconsciente. Os sonhos, os sintomas neuróticos, os atos falhos são manifestações do inconsciente que pretendem através do significante que se entrelaça a um significado falar de uma verdade inconsciente.

É ao pontuar o discurso de um sujeito, a fim de que um sentido surja daí, isto é, daquilo que ele está trazendo para a análise como sendo sua história, que Lacan formaliza uma teoria do inconsciente a partir da linguagem, pelo viés do significante. É preciso tirar toda determinação de profundidade psíquica para a questão do sujeito e apontar as leis deste inconsciente – linguajeiro: a metáfora e a metonímia vão ocupar o lugar daquilo que em Freud é deslocamento e condensação das representações psíquicas. Assim, torna-se possível empreender uma leitura lingüística da obra de Freud, reordenar todo um campo teórico e acomodar os conceitos da psicanálise na esteira da linguagem. A determinação metonímica e metafórica no discurso de um sujeito vem tratar desta tentativa de formular uma lógica para o significante e a condição de sentido para a cadeia significante. Após ter desarticulado o significado do significante, o sujeito é apresentado como produto do significante e este como única forma de expressão por parte de um sujeito. Com isso, pode-se compreender que os elementos da estrutura que Lacan constitui para a compreensão da subjetividade são os significantes. Pois, ao serem articulados entre si, pela metonímia e pela metáfora, os significantes colocam o sistema em movimento constante produzindo o funcionamento estrutural do inconsciente. Portanto, metáfora e metonímia tomaram o lugar do que em Freud era conhecido como condensação e deslocamento para que o inconsciente pudesse se exprimir na consciência, permitindo que haja um funcionamento deste sistema.

[1] Discurso de Roma in Escritos, pág. 249.
[2] SAUSSURE, Ferdinand. Curso de lingüística geral. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978. Pág. 196.
[3] A Instância da Letra in Escritos, pág. 506.
[4] O título da letra uma leitura de Lacan. São Paulo: Escuta. 1991. Pág. 62.
[5] Seminário 5, pág. 15
[6] Seminário 3, pág. 303.
[7] NANCY, Jean-Luc; LABARTHE, Philippe-Lacoue. O título da letra uma leitura de Lacan. São Paulo: Escuta. 1991. Pág. 62-63.
[8] Idem.
[9] Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano in Escritos, pág. 820.
[10] Discurso de Roma in Escritos, pág. 253.
[11] A Instância da Letra in Escritos, pág 516.

* Carla Regina Françóia é professora do Departamento de Psicologia e Comunicação Social da UNIBRASIL e Doutoranda pela UNICAMP.

Referências Bibliográficas
LACAN. “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” in Escritos. Rio de Janeiro : ed. Jorge Zahar.
LACAN. Discurso de Roma in Escritos. Rio de Janeiro : ed. Jorge Zahar.
LACAN. “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” in Escritos. Rio de Janeiro : ed. Jorge Zahar
LACAN.“Seminário 3. As psicoses”. Rio de Janeiro : ed Jorge Zahar, 1988.
LACAN.“Seminário 5. As formações do inconsciente”. Rio de Janeiro : ed Jorge Zahar, 1999.
NANCY, Jean-Luc; LABARTHE, Philippe-Lacoue. O título da letra uma leitura de Lacan. São Paulo: Escuta. 1991.
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de lingüística geral. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978.

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